quarta-feira, 3 de junho de 2020

Tapa com luva de pelica

Era uma tarde de verão quando Otávio encontrou-se com Simone no Shopping, pois ela esbarrou nele quase sem querer. Ele, que estava indo a um encontro, ficou todo sem jeito e ela, que fora apenas retirar ingressos para assitirem a uma peça no dia seguinte, pasmou-se ao vê-lo. — Otávio! Você aqui? — Pois é meu amor, eu tinha esquecido de lhe dizer, mas meu chefe pediu que viesse buscar os filhos aqui no Shopping. De pronto ela percebeu a falcatrua, mas fez-se de morta. — Oh meu querido, sempre sendo explorado por seu chefe... E aonde vai depois de deixá-los? Ele gaguejou, pensou por um minuto e depois disse: — Terei que voltar ao trabalho meu amor, como lhe disse, tenho um relatório por terminar. — Ok querido, vá logo então para não dormir muito tarde, nos veremos amanhã. Ela fingiu entrar em uma loja e depois saiu sem que ele percebesse, ficando à espreita a observá-lo. Cafajeste! Pensou ela em alto e bom som, engolindo a seco e voltando para casa. Pensou, pensou e então ligou para Barney, o chefe de Otávio, que era divorciado e por algumas vezes trocara olhares com ela. Olhares estes que até então foram absolutamente ignorados. Contou-lhe toda a história e o convenceu a pregar uma peça no empregado. No dia seguinte, quando Otávio fora apanhá-la na saída do serviço, vê Barney e ela conversando animadamente e, enciumado, começa a questioná-los sobre o que significava aquilo, ao que Simone ironicamente responde: — Boa noite meu amor, que coincidência você por aqui hoje? Pensei que só nos encontraríamos em casa mais tarde. — Pode me explicar o que significa isto? - Pergunta Otávio. — Você nem imagina, prezado Otávio. - Responde Barney. — Simone chamou-me para dar uma bronca por eu o sugar tanto, e eu expliquei a ela que conto com sua ajuda, pois você além de excelente funcionário é o único amigo com quem posso contar... Otávio, envergonhado, muda o tom de voz e não toca mais no assunto... Moral da história: não faça aos outros o que não quer que lhe façam, um tapa com luva de pelica pode doer mais que um bofetão.

Sr Cruel e a gripe suína

Joana recebia o Sr. Cruel a centímetros de distância. Ele era cliente assíduo, comprador de muitas peças, bom pagador, mas que exigia dela horas de atenção. Nunca foi muito dado a protocolos, nem lhe parecia que o tal tivera uma boa educação. Quando estava com sono abria a boca a ver-se a goela, e ainda sonorizava de forma absurdamente audível sua sensação de sono. Após o almoço, sempre era possível saber o que tinha comido, tal era o seu descaso às boas maneiras. Ela não compreendia como tinha enriquecido tanto sendo assim tão porco e desleixado. Como de costume, ele sempre apertava as mãos dela com uma força descomunal e era impossível não sentir aquelas mãos sebosas que lhe virava o estômago, e sempre lhe vinha a mente os inúmeros micróbios, bactérias e outras coisas que ele compartilhava naquele momento, mas em nome da excelência no atendimento ao cliente engole-se cada sapo, bah! – Naquela manhã ele chegou bem cedo na loja. — Bom dia! Sr Cruel. - Cumprimenta-o Joana e sem que pudesse dizer mais nada ele dá início a conversa interminável. - Blá, blá, blá, atchiiiimmmmm. Expirra o tal homem e os resíduos são percebidos a metros de distância. - Pensa a pobre Joana: Oh! por Deus, o que faço eu agora? Afasto-me? Permaneço aqui? Isto não é questão de bom atendimento e nem de visar os lucros, mas da minha saúde, de minha vida, pensa Joana. E sem que pudesse se decidir, a história se repete ainda três vezes. - Blá, blá, blá, atchiiiimmmmm. Blá, blá, blá, atchiiiimmmmm. Blá, blá, blá, atchiiiimmmmm. - A esta altura, se fosse o caso dele estar contaminado com a gripe suína que assolava a cidade, sem dúvida ela, os móveis e tudo que estava a frente e a volta deles também estaria. A cada espirro ela se afastava alguns passos, mas sabia que de nada adiantaria. Como algo inédito em outra ocasião, Joana implorava a Deus que ninguém adentrasse na loja até que ela pudesse fazer a desinfecção total, e provavelmente teria que por uma placa que estava fechada para balanço. Neste momento um pensamento mórbido lhe veio à cabeça, visualizando sua loja fechada com os dizeres a porta: “Estamos fechados por luto!” Em momentos de gripe suína é assim. A pandemia é um fato. Os cuidados são necessários. A conscientização de todos é indispensável. Se você conhece uma Joana ou um Sr. Cruel, acorde e preocupe-se com sua saúde e dos que o rodeiam. O texto acima foi escrito em 2009 e reescrito em 2017, quando a preocupação era com a febre amarela que não é transmitida pelo ar, mas através da picada de mosquitos do gênero Aedes ou Haemagogus, sem contar a dengue, zica e chicungunya contraídas através da picada do mosquito Aedes Aegypti. Republico agora quando a pandemia do Coronavírus acomete o mundo e, ainda assim, muitos não tomam os cuidados mínimos para evitar sua disseminação: lavar muito bem as mãos, usar alcool gel, evitar aglomerações e manter uma distância mínima, usar máscara, etc. Sem contar que em paralelo, a dengue continua a atacar, isto porque do mesmo modo muitas pessoas são displicentes, sem lembrar da importância de evitar criadouros, não deixando água parada.

Seja o que falta em mim

Que me permita ser amada na medida perfeita, metricamente feita só para mim... Que seja comigo nos momentos em que eu precisar e que preciso for quando eu sozinha desejar estar... Que segure minha mão e se faça presente, mas que mesmo ausente me permita sentir seu toque, seu calor. Por serem tão claras em mim suas muitas lembranças. Tão incisivos seus sentimentos... Que console minha alma nos momentos de desespero e que me envolva em seus braços docemente. Leve-me ao céu a encontrar todas as estrelas em inebriante loucura... Que sua voz seja minha música. Que seu cheiro, meu perfume. Seus lábios me alimentem e me revigorem... Que isto não seja paixão, mas o despontar do amor... Que subsista as tempestades, sem infidelidades, sem desencontros, sem medos, sem máscaras, sem desamor... Sendo você aquele que conhece meus limites e imperfeições e com eles ama-me toda, até o que odeia em mim... Venha agora e seja sempre meu grande amor... Seja o que falta em mim...

Retratar

Retratar a morte. Retratar a vida, Retratar o tempo, o espaço, o vento... Coisas banais, coisas normais, extras, vis, totais. Retrata-me em teu quadro, Adormeça-me em teus braços, Cubra-me, proteja-me. Tragas paz, emoção e fantasia. Coisas fúteis, coisas reais, De paixão, de amor, de vida. Retratar a morte. Retratar a vida, Retratar o tempo, o espaço, o vento... Retrato-te e emolduro-te, Achegues em meus braços, Desconjuro-te, afasta-te Imploro perdão, curo-te. Coisas fluidas, coisas úmidas, De paixão, de amor e mais. Retratar a morte. Retratar a vida, Retratar o tempo, o espaço, o vento...

O tempo é soberano

O tempo corre e nada podemos fazer para detê-lo, a não ser saborear cada um de seus milessegundos ao lado de quem amamos, fazendo o que nos realiza sempre que possível for e vivendo em retidão e verdade, conforme o exemplo que nos foi dado por Jesus. Afinal, o tempo é soberano em si, Não depende de nós. Ele não muda nem envelhece. De nada adianta pararmos porque ele não para.

Abraço, antídoto para a solidão

Quando a solidão chega, não pergunta se pode entrar, simplesmente entra e fica. Aí são noites infindas e vazias, dias áridos, sem graça. Pessoas passam por nós sem que nos notem e nós, sem forças, tentamos nos fazer enxergar. Tolice... O som do silêncio preenche os espaços e o horrível grito do nada inunda nossas mentes. Lembranças dos dias alegres se esvaem frente a nós e são nada em segundos. Nossos corações que outrora bateram tão forte, agora são fracos. Os sabores se tornam insossos. Não há cores, só o "black" reina soberano, não há perfume, só dores... Os bosques que antes floresciam, murcham e secam-se. Os Pássaros? Eles já não cantam. A Música? Não mais ecoa no ar. Ficamos estáticos, sem um ponto de partida ou de chegada, sem saber aonde ir, nem para onde voltar... Mas eis que Deus, o Pai, olha para todo nosso desalinho e chama-nos à vida novamente. E do ponto onde repousa a luz, o mundo volta a brilhar sobre nós, de um estrondo interior o som volta a se fazer ouvir, com um mágico e divinal perfume percebemos os cheiros e então os gostos, e novamente sentimos e enxergamos. É o amor: o amor divino, o amor sublime, o amor amigo, o amor fraterno, o desejo de amar. Esta engrenagem que move a vida e pode ser acionada com o calor de um abraço sincero. Estamos enfim, prontos para um um novo dia, para próximo instante. Um abraço, forte e fluído de novos "insights' resplandece e desponta dentro de nós, mas só quem já viveu a dor da solidão é capaz de compreender a força magnífica de um abraço repleto de amor... Vivas à vida! Vivas ao abraço! Vivas ao amor!

No espaço de um passo me perdi em loucura

No espaço de um passo me perdi em loucura, Copiando as estrelas, me compus de você. Como um corpo celeste reluzi e brilhei. Cambaleante me entreguei à paixão E como estrela cadente em seu corpo me deitei. Fiz-me sua, tão sua e inconsequente. E então se fez dia e fomos apenas nós... Mas depois se fez noite no calar do dia, Na casa era você e eu, não mais nós. Mas então se fez ano no andar do tempo E prá lá de uma década, acordei relaxada, E olhando você, percebi que se foi. Eu chorei e sofri, mas de nada adiantou. E fiquei, quase morri, tudo assim terminou. Já não era paixão, era amor de verdade. Repensei, você refletiu, ambos nos conscientizamos, Amadurecemos e voltamos a ser nós para viver este amor.

Miragem

O relógio desperta estridente, assusto-me, mas me viro para o lado e envolvo-me em um sonho azul, no doce sono que me leva para o mar. Mar de águas claras, ondas prateadas e areia branca. Em um barco no horizonte, uma miragem: o jovem que o dirige vem para a praia e sorridente segue ao meu encontro. Até que o sol brilha na fresta da janela, acordo ainda com esperança de voltar a sonhar qual nada, apenas me atrasei para o trabalho, agora é correr para não me demorar mais.

Limitações

Cansaço: Laço de minha vida. Ecos d'alma, Falta de saída. Saudade: Lembrança de outrora, Energia, vigor. Corre daqui, corri de lá, sorriso no rosto Plenitude no andar, ausência de dores, Mente brilhante, disposição a mil. Limitações, compreendê-las requer maturidade. Aceitá-las, demonstra sabedoria. Conviver com elas, um aprendizado. Superá-las, um exercício contínuo.

Libertando o espírito

No instante em que o espírito se liberta das amarras do ontem, vive-se o hoje e constrói-se o amanhã. Esta frase escrevi na adolescência e ela me acompanha até hoje, e, sempre que me pego presa ao passado, lembro-me dela. O passado deve servir apenas para dele tirarmos boas lições e boas lembranças.

Divagações ao meio dia

Da minha mesa, olho pela porta de vidro e vejo o sol brilhar um tanto encabulado, nuvens se amontoam e compõem desenhos algodoados no céu. Deixo-me levar por devaneios voltando aos tempos de criança, quando me deitava no gramado de casa por horas a fio, só para observar as idas e vindas das nuvens formando figuras mutantes, as quais eram personagens de inúmeras histórias que criava mentalmente. Um vento frio penetra por entre a fresta da porta e me faz pisar novamente em terra firme. Aproveito meu horário de almoço para deixar minha mente se perder em divagações, apesar de que perdida estou sim, mas atrás do amontoado de papéis e processos sobre a mesa. O silêncio é quebrado pela chegada de uma cliente na recepção. Ouço as detalhadas explicações do atendente sobre os procedimentos técnicos para cada tipo de serviço e admiro-me por ele conhecer tanto do que faz. Penso por mais um minuto na colega que perdeu sua mãe esta madrugada. Coisa horrível é a dor da perda... Uma mãe é algo imaculado, difícil aceitar viver sem ela. Nossos dias são assim: surpresas boas, tristezas cruas, lamentos sufocados, prazeres ilícitos, desejos explícitos, carências loucas. Um amontoado de emoções nossas e de outrem, com as quais lidamos diariamente, porém, há uma certeza de que Deus sempre nos dá o melhor sempre, mesmo que seja tão difícil de compreender, muitas vezes, Suas razões.

Amigo, presente de Deus

Caminhava eu pela estrada da vida, solitária, perdida... Precisava de um ombro para chorar a minha dor. Então orei a Deus aturdida: — Deus, Oh Deus! Dá-me uma luz, uma guarida. Sei que tenho a Ti e maior que a Tua majestade nada existe, Mas na pequenez da minha humanidade, Peço-lhe alguém de carne como eu Para me ouvir desabafar sem reservas. E Deus, em Sua infinita bondade me ouviu. Concedeu-me não só um amigo, mas um irmão de coração. Com ele pude me derramar, aconselhar-me e até orientar-me na poesia. A Deus minha gratidão. Dedicado ao amigo, irmão e mestre Fábio Renato Villela (in memoriam)

Impiedade medíocre e voraz

A impiedade se avizinha de nós e apunhala-nos em um sopro. Acorrenta, reprime e faz agonizar a muitos. É a morte dos sonhos, a descrença de potencial, Não aceita a diversidade, ignora as necessidades. Miserável humanidade torpe, perdida, que vive em desalinho, Com desculpas mal lavadas e pseudo padrões medíocres. De pronto se ensoberbece com tolices, enlouquece com riquezas, envenena-se com as próprias fofocas e mentiras. Cospe faíscas ardentes, maldade pura e cruel. Cinismo a verter pelos poros, misericórdia nenhuma. Pisoteiam e trituram semelhantes sem remorso. Nada além de sua impiedade medíocre e voraz.

Hipotireoidismo -, consequencias e lutas

Quando me refiro ao hipotireoidismo não falo como especialista no assunto e não tenho nenhuma pretensão que não a de dar meu depoimento como portadora de tal problema de saúde, com o objetivo único de alertar caso algum leitor ou conhecido esteja vivenciando uma situação semelhante. Voltarei ao período anterior à doença, só para que entendam melhor as mudanças físicas e emocionais. Na gravidez do meu primeiro filho engordei apenas cinco quilos, de tal modo que eu saí do Hospital com a mesma calça tamanho trinta e oito de antes de engravidar, já que tudo que tinha adquirido era barriga. Sempre fui muito magra e permancer assim tão logo nascesse meu primogênito não era surpresa alguma. Então pensava — preocupar-me com o quê? Poderia continuar comendo de forma excessiva como sempre fiz. Regimes e alimentação balanceada me pareciam absolutamente desnecessários. Todos os alertas daqueles que me queriam bem eram, a meu ver, impróprios. Porém, ele deixou o peito e começou a tomar “nanon”, gulosa que sempre fui, virei sua sócia ou melhor, eu era a acionista majoritária, se ele precisava de uma lata de Nanon eu comprava três, pois duas eram minhas para simplesmente comer assistindo TV. Engravidei do segundo filho, e quando ele nasceu eu já estava um pouco menos magra do que antes, engordando oito quilos, mas não os perdi após seu nascimento, mesmo assim não me parecia absurdo, porém, passei a ganhar peso gradativamente. Logo percebi que minha agilidade física e mental não era mais a mesma, começando a sentir dores nas articulações e muita indisposição e tristeza, mas como estava passando por situações de estresse, atribuí a isto tais mudanças. Não era fã de visitas a médicos, pois meu trabalho, estudo e casa me tomavam o tempo e a saúde ficava sempre para depois, mas em uma visita à ginecologista contei o que estava sentindo e ela solicitou alguns exames, quando fui diagnosticada com hipotireoidismo. Como os níveis eram alarmantes, ela iniciou um tratamento imediato e me encaminhou para uma endocrinologista, mas, apesar do tratamento, percebi uma perda da minha capacidade intelectual e foi como se um período da minha vida ativa tivesse sido apagado da memória. Os leitores da minha idade devem se lembrar de que quando uma fita cassete enroscava, o jeito era cortar o pedaço que estava enroscando e colar o restante com durex. Não perdíamos toda a fita, mas uma parte dela deixava de existir, e era assim que minha mente estava, como uma fita cassete remendada e sem um pedaço importante da música, no caso das memórias ou lembranças... Apesar de um pouco aborrecida, não me desesperei, pois era jovem e muito havia pela frente. Ledo engano, pois aquilo era sério e eu não levaria muito tempo para ter consciência disso. Os anos passam e pesam sobre nós, mas eu tentava policiar a minha vontade de comer, fazendo um regime que de nada adiantava. Somado ao fato da perda de memória, dores e a gordura corporal, eu sentia muito sono, que com o tempo foram amenizadas pelo uso regular de medicação, mas nunca mais desapareceram. Doces, lanches e muitos pães eram “minha dieta ideal”, uma verdadeira tentação. O pior é que mesmo sabendo disto, mesmo tendo uma dieta mais regulada com muitas frutas e verduras, com pouca fritura, lanches, refrigerantes e sucos artificiais, amando arroz e pão integral, ainda não consigo ficar sem doce um só dia e se compro pão francês ou caseiro não resisto e como logo dois ou três. Tenho lutado muito para mudar meus hábitos não só alimentares, abandonar o sedentarismo, mas nos trinta anos que convivo com a doença é uma luta da qual não saí vencedora, intelectualmente procuro recobrar minhas memórias e reaprender o que se perdeu, ativando o cérebro de muitas maneiras, mas as sequelas ainda me incomodam, especialmente meu sobrepeso. Os especialistas dizem que não existe causa ou cura para a doença, então vou acompanhando e controlando as consequências através de consultas regulares ao endocrinologista e uso de medicação, além de lidar com minhas limitações sem revolta buscando superá-las a cada dia.

Família

De geração a geração a família é bênção dos céus, A estrutura edificada no altar de Deus, seu Senhor. Unida pelo amor, regada com sabedoria, paciência, perdão e Outros sentimentos capazes de manter viva a chama que a une.